terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Não há como fugir à magia do olhar de Rosa


Bons dias a todos!

Estimulado pela adesão de mais uma amiga, volto a falar de livros e de leituras, depois de algum tempo sem entrar nesta sala.

Acho que andei negligenciando até o que é uma necessidade pessoal, que é a de dividir com amigos, conhecidos e com quem quer que se apresente e goste de ler, de livros e de "causos" acerca de livros, de leituras e de autores.

Não lembro se já comentei aqui que participo, desde 2008, de um grupo de leitura de Guimarães Rosa, na USP, no Instituto de Estudos Brasileiros - o IEB. Para quem se interessar, é um grupo aberto, não se faz uma leitura formal e não se trabalha sob a perspectiva da crítica ou da análise literárias. É uma atividade que visa a tão somente abrir aos participantes a possibilidade do deleite e do prazer, a partir da escrita rosiana.

É claro que, algumas vezes, temos a presença de professores, que estão a escrever suas teses de mestrado e doutorado, e de estudantes que escrevem seus TCCs, além de escritores e autores que já se debruçaram sobre a obra do autor e publicaram suas impressões e estudos, para esclarecimento e melhor entendimento das dimensões da obra, mas mesmo estes não comparecem senão para dividir o encanto que encontraram na leitura de Rosa ou para mostrar algum aspecto que, por vezes, pode ter passado despercebido para um ou outro estudioso, ou ainda para mostrar um novo ângulo a partir do qual podemos olhar para a obra enriquecendo nossa experiência de leitores.

Este começo assim é apenas para dizer que, uma vez feito o contato com o texto rosiano, não há como fugir à magia com a qual o olhar de Rosa para o mundo nos enfeitiça e encanta. Assim é que, a partir de 2008, e nos anos que se seguiram, vi-me compelido a "montar" uma "rosiana". Isto é, comecei a comprar e ler tudo o que me chegava às mãos e que tratava - e trata - da obra de Guimarães Rosa.

Hoje mesmo, acabei de ler um livro com um título, eu diria, um tanto esdrúxulo para quem não está familiarizado com o "bruxo da linguagem", conforme Consuelo Albergaria. O livro se chama: "Conjunctio Oppositorum no GRANDE SERTÃO". Escrito como dissertação de mestrado em Filosofia, por Ricardo Guilherme Dicke, em 1982, ele trata de mostrar ao leitor de Rosa, como é que se dá a União dos Opostos, ao longo de toda a epopeia narrada por Riobaldo no Grande Sertão: Veredas. E considera e defende para Diadorim o posto de personagem principal do livro, por conjugar todas as oposições em si.

Para quem ainda não leu Guimarães Rosa e, especificamente, o Grande Sertão, vale chamar a atenção para o que Dicke traz, citando Nelly Novaes Coelho, como forma de diferenciar o modo de escrever de Rosa, comparado a outros escritores contemporâneos seus. Diz Nelly, citada por Dicke:

"Múltiplas foram as descobertas que ela [a obra de Guimarães Rosa] trouxe ou provocou, e uma das que de imediato tocou seu leitor foi a da alegria vital que o homem civilizado perdera (ou perdeu?).

"Alegria como dinâmico estado de espírito; júbilo estranho que arraiga fundo no ser, a despeito dos contrários e desconformes da vida (ou talvez devido a eles), é o que caracteriza o herói rosiano, - homem organicamente integrado no universo, e vórtice em que confluem forças contraditórias.

"Note-se que o desenlace de todas as narrativas de Guimarães Rosa fogem ao pessimismo e à desesperança que marca certa linha da literatura contemporânea, - a literatura que reflete o homem 'dessacralizado', o homem que, com a perda de Deus, perdeu seu equilíbrio vital e sua ligação com o universo.

"Paralelamente a essa alegria essencial, se afirma na personagem rosiana uma nova e selvagem religiosidade. Um espírito religioso primitivo, quase violento, de onde a antiga mansidão e êxtase espirituais, características da consciência cristã ortodoxa, estão totalmente ausentes. A religião vivida pelo herói rosiano é de outra natureza: aproxima-se do sentido primitivo do termo, guardado em seu significado etimológico: 'religio', - re-ligação do homem ao universo cósmico, ao que transcende o seu entendimento, mas que abarca o humano como parte do todo."

Que lhes parece isso como estímulo à leitura de Guimarães Rosa?

Como eu digo cada vez que publico um texto novo, espero voltar mais frequentemente e em intervalos menores para repartir com vocês as emoções e descobertas a que me levam minhas leituras. Creio que a partir de agora, vai ser possível.

E para registrar o estímulo que me fez cometer este novo texto, quero deixar meu agradecimento por você se ter juntado a nós, Mara. Bem-vinda. Espero que possamos você e eu, e quem mais quiser, trocar ideias e impressões acerca dos livros que nos emocionam e enriquecem nossa experiência. Fique, por favor, à vontade para publicar também seus comentários e insights a partir de leituras, livros e autores. Assim como estão todos mais uma vez convidados a isto.

Até logo!



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Um novo recomeço? Redundância?


Olá,

Há quanto tempo, não?

Esta é mais uma tentativa de voltar a falar de minhas leituras, dos livros que li, dos que estão na fila esperando para serem abertos e de alguma coisa do que aprendi com eles.

Espero que, a partir desta postagem, eu consiga não me demorar mais por tanto tempo, para lhes oferecer um cardápio de leituras recheado de delícias, apresentando-lhes os mais variados temperos e sabores. Para que juntos aprendamos a provar um pouco de tudo, a desfrutar um pouco de tudo, ou de quase tudo, o que escritores do mundo inteiro reservam para aqueles que ousam abrir os livros que brotaram de sua imaginação e/ou de sua experiência.

Para cumprir, em parte, o que prometi da última vez, vamos voltar ao livro de Dave Eggers: O que é o Quê?

Bem, para começar, posso dizer que o livro escrito por Eggers é, na verdade, como se pode ver em seu subtítulo, a Autobiografia de Valentino Achak Deng.

Como?

Sim, pode parecer estranho, a princípio, mas é isto mesmo. O que Eggers faz é dar voz a um dos Meninos Perdidos do Sudão. Ora, dirão vocês, o que é isso? E eu lhes respondo, é preciso ler o livro para se ter uma ideia do que vem a ser esta coisa de "Meninos Perdidos do Sudão".

Para facilitar um pouquinho dou-lhes abaixo uma pequena resenha do que é o livro, retirada da última capa, que diz o seguinte:

"Em um país dividido ao meio por crenças religiosa e interesses econômicos, 20 mil crianças, [em sua] maioria órfãs, são obrigadas a atravessar a pé milhares de quilômetros de floresta e deserto em busca de refúgio. Acossadas por milicianos a serviço do governo, por rebeldes e pelas próprias Forças Armadas, elas enfrentam a fome, sede, calor escaldante, doenças e animais selvagens a caminho da Etiópia e, de lá, rumo a um campo de refugiados no Quênia. São os Meninos Perdidos do Sudão - um país que passou cerca de quarenta dos últimos cinqüenta anos em guerra civil.

"Valentinho Achak Deng é um desses meninos. Depois de presenciar a destruição de sua aldeia natal em 1983 e de, aos sete anos de idade, atravessar metade do Sudão a pé, Deng passou treze anos em campos de refugiados, até emigrar para os Estados Unidos em 2001. Lá, conheceu o escrito Dave Eggers, para quem narrou essa história pessoal e coletiva de incomensurável valor humano, transformada neste romance em forma de autobiografia, que, além de uma lição de vida e persistência, nos dá a dimensão exata do poder da literatura."

Um trabalho e tanto de Eggers, que escreveu também, entre outros, um livro intitulado Os Monstros, baseado no livro ilustrado Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak, e no roteiro do filme homônimo, escrito por D. E. E Spike Jonze.

Eggers, que nasceu em Boston, em 1970, fundou uma editora independente em São Fransciso, a McSweeney's, e é co-fundador da 826 National, uma instituição de ensino e incentivo da escrita para crianças e adolescentes.

Acho que é importante dizer também, para quem quiser ler o O que é o Quê, que toda a renda obtida com o livro será revertida para a Fundação Valentino Achak Deng, que distribui dinheiro para refugiados sudaneses nos Estados Unidos; para a reconstrução do sul do Sudão, a começar por Marial Bai; para organizações que trabalham para a obtenção da paz e que prestam auxílio humanitário em Darfur.

Pode-se obter mais informações no site:

www.valentinoachakdeng.org.

Acho que por enquanto é isto.

Espero encontrá-los por aqui em breve.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Voltando à Sala de Leitura. Retomando a jornada.


Pensava outro dia, o quanto gostaria de ter retomado as postagens nesta sala sem me ocorrer razão alguma para que não o fizesse.

No final do ano passado, ensaiei algumas tentativas de indicar algumas leituras que marcaram meu ano, mas não cheguei a concretizar nenhuma. E lá se vai mais de um ano, desde setembro de 2009, antes de dividir com vocês alguns livros, que podem vir a ser importantes como instrumentos de descoberta pessoal que, ao mesmo tempo, levam ao prazer, porque capazes de encurtar a distância que existe entre o que pensamos ser e o que, de fato, somos. Uma distância que só existe na mente de muitos de nós, levados a pensar em uma separação entre o que somos e vivemos, que não tem base nenhuma para se sustentar.

Bem, recomecemos, pois, nossa aproximação deste objeto que assusta tanto a tantos, mas que é absolutamente prazeroso - quase um vício - para um grande número de pessoas. Nós, os que frequentam esta sala e eu, entre elas. Que ainda não somos tantos assim.

Retomemos nossa viagem devagar, para desfrutar do prazer de ler sem medo de nos desviarmos de quaisquer caminhos, afinal todos os caminhos que têm um coração, parafraseando Don Juan, o "brujo" de Castañeda, valem a pena ser trilhados. Não concordam?

De minhas leituras mais recentes, quero lhes indicar dois ou três livros em particular. Cada um deles descortina um mundo desconhecido para muitos, familiar, talvez, a outros tantos, mas, de qualquer forma um mundo que faz parte de nossa existência humana e que merece - e muito - ser conhecido.

O primeiro deles se intitula Pequena Abelha, um livro - o segundo, se não me engano - de Chris Cleave. Acredito que todos que o lerem vão gostar muito. Mas não posso dizer por quê. Para deixá-los curiosos, vou citar o que ele traz em sua última capa, o que, talvez, possa lhes chamar a atenção e levá-los a lê-lo. É o seguinte:

"Não queremos lhe contar o que acontece neste livro.

"É realmente uma história especial, e não queremos estragá-la.

"Ainda assim, você precisa saber algo para se interessar, por isso vamos dizer apenas o seguinte:

"Esta é a história de duas mulheres cujas vidas se chocam num dia fatídico. Então, uma delas precisa tomar uma decisão terrível, daquelas qeu, esperamos, você nunca tenha de enfrentar. Dois anos mais tarde, elas se reencontram. E tudo começa...

"Depois de ler este livro, você vai querer comentá-lo com seus amigos. Quando o fizer, por favor, não lhes diga o que acontece. O encanto está sobretudo na maneira como esta narrativa se desenrola."

Que tal? Parece-lhes atraente a ideia de ler uma história assim? À vontade, por favor. Depois me digam, se quiserem, o que acharam.

Não vou falar do outro livro agora. Só indicá-lo. Trata-se do livro O QUE É O QUÊ, de Dave Eggers. Um livro escrito em 2006. Mas vou reservar qualquer comentarário a respeito de algumas de minhas impressões sobre ele para a próxima postagem.

Não há como não falar, no entanto, do terceiro. É um dos livros de Clarice Lispector, que se chama Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Vou comentar, mais tarde, como fui levado a lê-lo. Por enquanto, posso lhes dizer apenas, a título de aproximação, o que diz o editor nas orelhas do livro e que é o que segue:

"Ela jamais soube - melhor, jamais se interessou por saber - exatamente o que, de um ponto de vista crítico, literário, significa 'escrever'. As definições, as conceituações, de qualquer tipo e origem, entravam-lhe, como se diz, por um ouvido e saíam pelo outro...

"No entanto, será raro encontrar alguém, entre os melhores escritores seus contemporâneos, que se tenha deixado tomar com tanta liberdade, de forma tão indefesa, tão desamparada e nua, pelo ato de escrever.

"Seus textos quase não têm uma história, um enredo. Neles o leitor é projetado, sem maior cerimônia, para dentro do próprio ato criador; parece que Clarice está sempre dizendo: 'Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Pergunte, sem querer "a" resposta, como eu estou perguntando. Não se preocupe em "entender". Viver ultrapassa todo entendimento'.

"Talvez os livros de Clarice, para além (ou aquém...) de tudo que os especialistas já comentaram e ainda vão comentar, tenham por objetivo 'pedir' ao leitor que se despoje de suas próprias imagens - psicológicas, afetivas, sociais, culturais, políticas, etc. -, se desmonte, se desarticule e se faça renascer segundo a medida do texto: que ao lê-lo, ele passe pelo mesmo processo que ela, Clarice, ao escrevê-lo. Isto é, escrever/viver são apenas uma aprendizagem, cujo percurso se inicia, se desdobra e se resolve no prazer de afirmar:
'Eu sou tua e tu és meu, e nós é um'."

Creio que isto já é suficiente para um recomeço. Não lhes parece assim?

Espero encontrá-los em breve comentando o que acharam das leituras que lhes indiquei. E mais até, se possível, indicando também as leituras que fizeram e dividindo com todos nós as impressões e os prazeres despertados por este ou aquele livro e/ou escritor ou escritora.

Um bom 2011 de leituras a todos.

Até a próxima que, espero, seja em breve.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

De volta à Sala de Leitura

Há dias ensaio os passos para entrar de novo nesta Sala de Leitura, já entregue às traças e a outros insetos apreciadores de livros, sem mencionar as aranhas que já teceram várias de suas teias e esperam pacientemente suas presas incautas.

Livros que li desde a última passagem por este espaço? Desde o último registro, em junho? Vejam só, junho! Parece-lhes pouco? A mim parece uma eternidade. Apesar de não ter estabelecido nenhuma periodicidade para as postagens neste blogue, imaginava que o prazer de falar de livros, de leituras, me faria frequentar mais amiúde este lugar.

De qualquer sorte, eis-me aqui mais uma vez. E não vou falar do que li durante esta longa ausência, ou do que estou pensando em ler. Nem do que, de fato, leio presentemente. Desta vez vou apenas lhes presentear com um excerto de Guimarães Rosa, a respeito do poder. Sim, a respeito do poder. O poder pessoal, do qual abrimos mão quando nos entregamos às emoções dos sentidos sem atentar para aquilo que queremos, de verdade. Sem prestar atenção ao que fazemos com nós mesmos. O texto é do Grande Sertão: Veredas e trata de um momento de reflexão de Riobaldo, ao narrar sua estória a seu interlocutor. Assim:

De que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar neles. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. ... na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. (...) Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em forças para não esparramar raivas...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mais algumas leituras

E olha o fim de junho aí. Já nem falo mais no livro do Hatoum. Emperrou. Estancou. Alguém se habilita a informar o que leu nestes últimos trinta dias? Desconfio que esta Sala de Leitura tem estado vazia. Ou porque já não encontramos quem goste de ler, ou porque os poucos que leem já não querem dividir os prazeres a que foram alçados a partir do que leram. Querem manter o segredo de sua relação com o autor ou autora com quem viajaram. Ou viajam ainda.

Não há de ser nada. Aqui, com relação a isso, eu não tenho nada a esconder. Li muito desde a última postagens. Coisas que folheei aqui e ali. Entre elas, um livro de Irvin D. Yalom, o autor de Quando Nietzsche Chorou, chamado Os desafios da terapia. Muito interessante, tanto para pacientes e interessados, quanto para quem se dedica ao trabalho com pessoas, buscando lhes ser de auxílio na auto-descoberta e, quando é o caso, na cura dos males que nos afligem a todos algumas vezes.

Também li alguns contos de Guimarães Rosa. Uns com um grupo de leitura que se reúne às quartas no IEB - Instituto de Estudos Brasileiros, na USP, aberto a interessados. Outros, um em particular, Páramo, por indicação de uma amiga que participa deste grupo. Vale a pena citar o que Rosa diz já no início do conto:

Sei, irmãos, que todos já existimos, antes, neste ou em diferentes lugares, e que o que cumprimos agora, entre o primeiro choro e o último suspiro, não seria mais que o equivalente de um dia comum, senão que ainda menos, ponto e instante efêmeros na cadeia movente: todo homem ressuscita ao primeiro dia.

E um pouco adiante: Só este é o grande suplício: ainda não ser.

Li ainda dois livros de Mia Couto, grande escritor moçambicano de língua portuguesa. O primeiro, um livro de contos intitulado O fio das missangas, traz verdadeiros achados. Tanto no que se refere à linguagem, quanto no que se refere à profundidade das ideias que oferece. Alguns exemplos soltos:

"falar é fácil. Custa é aprender a calar."

"Minha sabedoria é ignorar as minhas originais certezas. O que interessa não é a língua materna, mas aquela que falamos mesmo antes de nascer."

"Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é feito para o futuro e o de outro é rabiscado para sobrevivência."

"... criancice é como o amor, não se desempenha sozinha. Faltava aos pais serem filhos, juntarem-se miúdos com o miúdo. Faltava aceitarem despir a idade, desobedecer ao tempo, esquivar-se do corpo e do juízo. Esse é o milagre que um filho oferece - nascermos em outras vidas."

O segundo, um romance que leva o título Terra Sonâmbula e trata da guerra anticolonial e civil com que conviveu o povo moçambicano por quase trinta anos. Talvez o livro mais importante da carreira de Mia Couto. O mais forte e mais pungente ao relatar, de acordo com a primeira orelha do livro, com "um meticuloso trabalho de lapidação poética ... as mitologias tribais e os casos que circulam de boca em boca pelos meandros da cultura oral africana, bastião de resistência num país como Moçambique..." Imperdível!

E, para não esquecer e não deixar passar em branco, li também um livro de memórias de uma escritora chamada A. M. Homes, cujo título é A encomenda. A autora, filha adotada ainda bebê, narra sua intensa busca por informações acerca de sua família biológica [há também a busca de dados da família que a adotou], ao receber a informação reveladora de quem eram seus pais. Um relato extremamente honesto e claro, e muito bem escrito, pontuado pelos conflito psicológico e pelos conflitos pessoais e de relacionamento familiar que a descoberta gerou. Tanto com a família que recebeu "a encomenda" quanto com as pessoas que deveriam ter sido sua família ao nascer.

Por fim, quero dar as boas vindas a nossa nova seguidora, a Silvina 0707, apesar de achar que ela entrou nesta sala por engano, em busca de milagres. Quem sabe alguma de nossas leituras pode lhe dar o que ela busca. Bem vinda, Silvina. Espero que você curta. E que contribua, pois não?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Um livro que vem de longe

Pois vejam só como são as coisas. Não queria que o mês de maio acabasse sem lhes poder dizer que li o livro de Milton Hatoum. Aquele sugerido para a leitura de março. Hum... quem disse quê? Pois é, não li. Sequer o peguei para. Tenho-o a minha frente, aqui. Uma capa muito bonita, uma foto de Hilton Ribeiro, mas o fato é que não o li. Continua adiado o prazer.

Que apelo têm certos livros que, uma vez iniciada a leitura, não nos deixam soltá-los enquanto não virarmos a última página. O que nos leva a abrir um livro, assim meio que ao acaso, e a nos deixarmos capturar por seu clima, por sua linguagem, pela história em que ele nos envolve e que nos transporta a outros mundos, a outros tempos? Às vezes ao mais profundo de nós mesmos, sem sequer um aviso prévio.

E, outras vezes, um livro nos pega assim de surpresa, vindo de algum lugar ou de um tempo de que já não nos lembrávamos mais. Um espaço esquecido em nossa memória. E, de súbito, ele se apresenta e já não podemos fugir a seu convite, ao apelo que ele nos faz de que lhe dediquemos um pouquinho de nosso tempo. E basta abrir suas páginas para nos tornarmos prisioneiros. Para que o mundo novo que ele oferece se descortine aos nossos olhos e sentidos.

Aconteceu agora comigo. Ao folhear um caderno de anotações lá de 2003, descobri uma referência a um livro. A anotação trazia apenas um título em Inglês: A fortune-teller told me. Na ocasião em que anotei não tinha conseguido descobrir nada a seu respeito. Quem me falou do livro foi uma amiga, que nem ao menos lembrava do nome do autor. Hoje, isso já faz alguns dias, vai-se ao Google. Digitei lá no espaço de busca: "A fortune-teller told me" e pronto! Milhares de páginas a respeito.

Tiziano Terzani, um jornalista italiano, é o autor. O livro, no original em Italiano, se chama Un indovino mi disse. Foi traduzido e publicado em Português, em 1995, pela editora Globo, com o título Um Adivinho me Disse. Traz ainda o subtítulo Viagens pelo misticismo do Oriente. Feito isso, toca conseguir o livro. Onde? Na Internet, é claro. Uma busca rápida num site que reúne cerca de 1.500 sebos do Brasil, o http://www.estantevirtual.com.br/, que recomendo, e encontro a melhor opção. Um exemplar em bom estado por vinte reais, frete incluso. Poucos dias depois o livro bate a minha porta.

Abro-o e descubro que seu ponto de partida é a orientação de um adivinho, feita em 1976, para que o autor não andasse de avião em 1993, ano em que correria grande risco de morrer, caso o fizesse. Para um jornalista, correspondente na Ásia da conhecida revista alemã Der Spiegel, a ideia de se deslocar pelo continente, fazendo a cobertura de acontecimentos dignos de registro ou mesmo a busca de fatos inéditos para publicação, não poder contar com a possibilidade de um transporte rápido e eficiente como o avião, parecia ser uma impossibilidade e uma enorme limitação.

É claro que ainda não acabei a leitura, mas já posso recomendá-lo, sem sombra de dúvida, pois o que Tiziano faz, e nos conta de forma saborosa, ao renunciar aos aviões é redescobrir a força do misticismo no Oriente. E, conforme nos diz a última capa do livro, "saboreando a lentidão das viagens via terra e mar, [investigar] a outra face daquela sociedade tecnológica e consumista que hoje parece tão fascinada com o futuro". Deste modo, "seu relato, povoado de magos e poderes ocultos, serve também de advertência para uma civilização que está se suicidando ao perseguir um modelo cultural que não é o seu".

Dando voz a Tiziano, vamos ouvir um pouco do que ele nos diz logo no primeiro capítulo do livro, após a tomada de decisão de seguir o conselho do adivinho e passar um ano inteiro sem se valer do avião como meio de transporte.

Foi uma esplêndida decisão, e o ano de 1993 acabou por ser um dos mais extraordinários que já passei: devia morrer e renasci. Aquela que parecia uma maldição revelou-se uma verdadeira bênção.

(...)

Deslocar-me não foi mais questão de horas, mas de dias, de semanas. Para não cometer erros, antes de me pôr a viajar, tinha de olhar bem os mapas, de reestudar a geografia. As montanhas voltaram a ser possíveis obstáculos ao meu caminho, e não mais belos, irrelevantes refinamentos em uma paisagem vista da janela.

Viajar de trem ou em navio por grandes distâncias, deu-me novamente o sentido da vastidão do mundo, e sobretudo me fez redescobrir toda uma parte da humanidade, a mais numerosa, aquela de cuja existência as pessoas, pelo hábito de voar, quase se esquecem: a humanidade que se desloca carregada de volumes e de crianças, aquela da qual os aviões e tudo mais passam, em todos os sentidos, por cima da cabeça.

Impor-me não voar virou um jogo cheio de surpresas. Quando alguém finge, por algum tempo, ser cego, descobre que, para compensar a falta de visão, todos os outros sentidos se afinam. A renúncia aos aviões tem um efeito semelhante: o trem, com suas comodidades de tempo e descomodidades de espaço, faz renascer a desusada curiosidade pelos particulares, apura a atenção por aquilo que se vê em torno, por aquilo que escorre fora da janela. Nos aviões logo se aprende a não olhar, a não escutar. A gente que se encontra é sempre a mesma, as conversas que surgem são previsíveis. Em trinta anos de vôos acho que não me recordo de ninguém. Nos trens, ao menos nos da Ásia, não! A humanidade com a qual compartilhamos os dias, as refeições e o tédio não se poderia encontrar de outro modo, e certos personagens permanecem inesquecíveis.

Tão logo decidimos deixá-los de lado, percebemos quanto os aviões impõem uma limitada percepção da existência. E quanto sendo um cômodo redutor de distâncias, acabam por reduzir tudo - inclusive a compreensão do mundo. Deixa-se Roma ao pôr-do-sol, janta-se, dorme-se um pouco, e ao amanhecer já se está na Índia. Mas um país é também toda a sua diversidade, e a pessoa precisa realmente ter tempo para se preparar para o encontro, precisa sofrer cansaço para gozar a conquista. Tudo ficou tão fácil hoje que não se prova mais prazer por nada. Entender algo é uma alegria, mas somente se há esforço. Assim também com os países. Ler um guia, saltando de um aeroporto a outro, não equivale à lenta, fatigante aquisição - por osmose - dos humores da terra, à qual, com o trem, fica-se ligado.

E por aí vai... Tenho certeza de que quem se aventurar vai gostar.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Onde fica a felicidade?

E acabou abril também. Nem li o livro do Hautom que sugeri como leitura para março, tampouco voltei a O Leitor, como havia dito que faria. Mas há uma razão para tanto. Para dizer o que eu queria, precisava ter o livro [O Leitor] em mãos. E minha mulher o levou em uma viagem, emprestou-o à irmã, e não o trouxe de volta.

Entretanto, tenho anotado um trecho. Trata de algumas perguntas que o personagem principal do livro faz de si para si [e, por consequência, para quem o lê, é claro], a respeito das quais acho que vale a pena dedicar um momento de reflexão. Reproduzo-o abaixo.

"Será porque aquilo que foi belo se torna frágil para nós em retrospectiva, por esconder verdades sombrias? Por que a lembrança de anos felizes de casamento se estraga quando se revela que o outro tinha um amante durante todos aqueles anos? Será porque não se pode ser feliz em tal situação? Mas a pessoa era feliz! Às vezes a lembrança não é fiel à felicidade quando o fim foi doloroso. Será porque a felicidade só vale quando permanece para sempre? Será porque só pode terminar dolorosamente o que foi doloroso de modo inconsciente e invisível? Mas o que é uma dor inconsciente e invisível?" [pp. 45-6]

Vocês não acham que vale a pena pensar acerca desta questões? Já lhes ocorreu algo parecido? Têm exemplos pessoais? Ou conhecem pessoas que pensem de modo parecido?

Comentem, por favor. À vontade.